ATUALIZAÇÃO CLIMÁTICA

Em nota, CIEX eleva o nível de atenção para possível concretização do El Niño no segundo semestre do ano

Especialistas avaliam dados e cruzam informações com centros internacionais; projeções apontam para impactos de nível Muito Forte

Na manhã desta terça-feira, 12, o Centro Interinstitucional de Observação e Previsão de Eventos Extremos (Ciex), divulgou a terceira nota técnica sobre as projeções para possíveis impactos do fenômeno El Niño no segundo semestre de 2026.  O atual cenário se dá a partir do aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial, que continuam se intensificando, o que, por sua vez, aumenta a probabilidade de formação de um episódio de El Niño de categoria muito forte.

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Apesar do cenário observado, os especialistas do centro destacam que o El Niño ainda não foi oficialmente configurado. Segundo os critérios internacionais utilizados pela National Oceanic and Atmospheric Administration, por meio do seu Centro de Previsões Climáticas (CPC/NOAA), o fenômeno somente é caracterizado quando as anomalias de temperatura na região Niño 3.4 permanecem acima de +0,5°C por pelo menos três meses consecutivos, acompanhadas de resposta atmosférica consistente.

De acordo com a nota, apesar da não configuração do fenômeno, os dados indicam um cenário de transição termodinâmica acelerada. Em 9 de maio de 2026, a temperatura média observada na área de monitoramento chegou a 28,74°C, representando anomalia positiva de +0,88°C em relação à média climatológica de referência. Na região central do Pacífico Equatorial, a anomalia já alcança +0,4°C, aproximando-se rapidamente do limiar necessário para a categorização como El Niño.

O relatório aponta, também, que o principal mecanismo responsável pelo aquecimento é a propagação de uma Onda de Kelvin oceânica de fase quente, que transporta grande quantidade de calor das porções oeste para leste do Pacífico. Observações em subsuperfície mostram anomalias superiores a +6°C entre 100 e 200 metros de profundidade, avançando em direção à costa da América do Sul.

Os primeiros reflexos desse processo já são observados próximo ao território do Peru e do Equador, onde há registro de anomalias de aproximadamente +1°C. Paralelamente, a atmosfera começa a apresentar sinais iniciais de resposta à nova configuração oceânica, indicando perturbações na circulação atmosférica tropical.

Comparação com eventos históricos

Segundo a nota técnica, o padrão atualmente observado guarda semelhança com as condições que antecederam episódios históricos de El Niño muito forte, como os registrados nos períodos de 1997/1998 e 2015/2016. A quantidade de energia térmica acumulada no Pacífico Equatorial é considerada suficientemente elevada para sustentar um evento de grande intensidade.

Além das observações oceânicas, os principais modelos climáticos internacionais reforçam essa tendência. Simulações do modelo norte-americano Coupled Forecast System Model Version 2 (CFSv2), bem como projeções do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo (ECMWF) e do Bureau of Meteorology australiano (BOM), convergem para um cenário de aquecimento superior a +2°C na região Niño 3.4 entre o fim do inverno e o início da primavera austral.

Com base na convergência entre observações oceânicas e projeções climáticas, o CIEX elevou o nível de atenção para a possível consolidação de um El Niño muito forte ao longo do segundo semestre de 2026.

Impactos no Rio Grande do Sul

A nota ressalta, porém, que os efeitos do fenômeno sobre o Rio Grande do Sul dependem de uma combinação complexa de fatores atmosféricos e oceânicos. Embora o El Niño seja um dos principais moduladores do clima global, elementos como as condições do Atlântico Sul e a Oscilação Antártica também influenciam diretamente o comportamento das chuvas na região.

Portanto, o Centro alerta que não é possível prever com meses de antecedência eventos extremos específicos, como temporais severos ou enchentes. Esse tipo de previsão permanece restrito às janelas de curto prazo.

Ainda assim, os modelos sazonais já indicam tendência de aumento das precipitações no Sul do Brasil durante a primavera de 2026. As projeções apontam volumes de chuva acima da média climatológica entre setembro e novembro, especialmente sobre áreas do Rio Grande do Sul.

Mas afinal, o que é o El Niño?

Caracterizado como um fenômeno natural, o El Niño acontece no Oceano Pacífico Equatorial e altera o comportamento da atmosfera em diversas partes do planeta; portanto, é considerado como um dos moduladores da temperatura global. Sua principal característica se dá a partir do aquecimento das águas superficiais nesta porção do planeta, especialmente próximo à costa do continente latino-americano.

O aquecimento, por sua vez, age como um fator importante no sistema climático terrestre, ao influenciar padrões de vento, áreas de precipitação e também a temperatura de diferentes territórios continentais.

Na prática, o fenômeno se forma com o enfraquecimento de ventos específicos que empurram águas mais quentes para o oeste do Pacífico. Com a falta desse fator, a água quente permanece na região central e leste do Pacífico, zonas que normalmente são mais frias. O cenário provoca um desequilíbrio atmosférico de grande escala que pode variar de país para país, mas padrões frequentes são observados em países como Brasil, Argentina e Uruguai, com o aumento das chuvas; e secas mais severas em países como Austrália e Indonésia, por exemplo. 

CIEX e o seu papel de instrumentalizar a tomada de decisão

Diante do aumento do risco climático, no último trecho da nota em questão, o CIEX recomenda que órgãos de Defesa Civil e gestores públicos intensifiquem imediatamente ações preventivas e revisem planos de contingência. O texto enfatiza que episódios de chuva intensa podem ocorrer mesmo sem a consolidação de um El Niño extremamente forte, e, conforme o cenário posto, eventos moderados já são capazes de fornecer condições favoráveis para precipitações acima da média na região Sul.

Por isso, a orientação é que medidas de mitigação e preparação não sejam condicionadas à confirmação definitiva da intensidade do fenômeno. O documento defende a adoção de uma postura preventiva, baseada em monitoramento contínuo e protocolos de antecipação diante do aumento do risco hidrológico para o segundo semestre do ano.

Confira a nota na íntegra a seguir.

3ª Nota técnica - 12/05/26